sexta-feira, 6 de julho de 2012

Mulheres

                                                                       Mulheres Protestando / Di Cavalcanti

Os nomes são fictícios, mas as mulheres são reais.

Ela me liga todos os dias. Anteontem eu estava no banheiro quando o telefone tocou, exitei em atender, quando retornei horas mais tarde ela me disse que precisava desabafar.

Foi em um mês de fevereiro há vinte e um anos atrás, ela tinha dezesseis anos e tivera até então apenas dois namorados. Com o primeiro nunca se deitou, lembra com alegria de um rádio a pilha, de  algumas tardes de sábado e do dia em que ele terminou o namoro, fora de repente, ele simplesmente terminou tudo levando consigo o rádio  e os sábados felizes. Mas ela tinha só quinze anos e essas coisas são bobagens, coisas de menina do interior.
Casou-se em uma noite de sábado em meio a lágrimas e vestida de véu e grinalda. Chorava e foi beijada na testa pelo seu agora marido. Não o amava, dizia que essas coisa viriam com o tempo.
Um ano depois tivera seu primeiro pupilo, mãe aos dezessete.
Inexperiente, indefesa, novata! Comeu biscoitos com café em sua lua de meu.
O marido era lavrador  e tinha um pequeno botequim, homem metido a valente, perdera a mãe muito cedo e aos vinte e seis ele já tinha poses. Casa, terras e um bar. Viviam felizes.
 Certa vez ele disse  que iria embora de casa, isso foi lá pelo quinto ano de casados, ela, desesperada acordou o filho na tentativa de persuadi-lo a ficar. Deu certo, conversaram e tudo se resolveu. Naqueles tempos brigas eram coisa de dois ou trés dias sem diálogos, mas só, logo depois tudo voltava ao normal. Sete anos depois  e ela estava grávida outra vez, mas perdera a criança depois de certas ocasiões onde sua paciência tinha sido posta a prova. Messes depois ela engravidou novamente, e nove meses depois o rebento veio ao mundo. O marido mudou-se para a capital do progresso, a Nova York tupiniquim. Em seguida foi a vez da mulher e os dois filhos embarcarem em um ônibus cruzando o pais rumo a São Paulo, deixando  para traz a casa confortável, sua mãe e seus irmãos, sua  escola, a igreja onde batizou-se, casou-se e batizou o filho, deixou para traz uma vida inteira. Uma vida velha.
 Em São Paulo morou de favor na casa da cunhada. O  marido trabalhava o dia todo, na cozinha agora haviam duas mulheres, em meio a muitas crianças, eram trés cômodos apenas.
Conseguiu um emprego. Um bom emprego em uma multinacional. Foi ai que tudo mudou, ela tornara-se independente, saia todos os dias, tinha amigas e vestia-se melhor. O  marido não gostou, começaram as discussões. Se fazia hora  extra estava no motel com algum amigo de trabalho ou com o chefe, com o padeiro, com o açougueiro, com o Gaspar.
Era chamada de vadia e puta, ameaçada. Quando em certo dia foi humilhada em rua pública na frente de cunhados e cunhadas, o marido gritou para quem quisesse ouvir difamações e estórias mal fundamentadas. As crianças ouviam tudo, percebiam tudo.
 Eles se mudaram, venderam tudo que tinham na antiga cidade, tiveram um  terceiro filho que por vezes  foi renegado, por vezes tido como o filho do marido da amiga, do pastor da igreja, do vizinho, da puta que pariu. Certo dia o marido tentou bater na esposa, mas o primogênito não permitiu. Outra vez ela e as crianças saíram de casa descalços fugindo do pai, do esposo e da faca.
Ela chora as vezes,  questiona-se onde errou. Imagina uma vida diferente. As crianças assistem tudo.
 A mulher tem trinta e sete, ainda pode, ainda deve e esperamos que ela lute, que ela  mude.
Ela é mãe e tem trés filhos.

2 comentários:

  1. Essa mulher pode ter certeza .....
    tem uma força incomparável que talvez nenhuma outra tenha essa mulher é capaz de transpor barreiras que talvez muitas pssoas conseguiram ultrapassar e pode ter certeza que essa mulher
    vai fazer muitos ficarem de queixo caido quando "ela" demonstrar o grande potencial que existe dentro dela !!!
    Aprenda a força de uma mulher esta em sua sabedoria

    Beijos Camaleão

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